A devoção à Sagrada Face de Jesus é uma das mais profundas expressões da espiritualidade cristã. Pode-se dizer que ela foi instituída pelo próprio Salvador no dia de sua morte, quando a sua Efígie Sagrada ficou impressa no Santo Sudário. Desde então, a contemplação do Rosto de Cristo atravessa os séculos como um convite silencioso a penetrar no mistério do seu amor redentor.
Nos últimos tempos, essa devoção tem conhecido um desenvolvimento significativo, seja pela importância decisiva que a Sagrada Face teve na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus, seja pelos estudos científicos em torno da figura de Jesus impressa no Sudário de Turim, seja ainda pelas revelações feitas a Irmã Maria Pierina de Micheli (†1945), grande mensageira contemporânea da Sagrada Face.
Tudo isso se apresenta como um verdadeiro sopro divino que passa sobre o mundo, chamando a humanidade à conversão, combatendo os excessos das imagens sedutoras e preservando as almas dos castigos da justiça divina.
A Face que revela o Coração
As promessas consoladoras feitas por Nosso Senhor, confirmadas pela experiência espiritual da Igreja, mostram o quanto é agradável a Deus e útil às almas a veneração da Sagrada Face. Contemplar o divino Rosto é um dos meios mais simples e eficazes de conhecer Jesus e, quase de imediato, experimentar o seu amor.
A própria Irmã Maria Pierina testemunhou: “A Sagrada Face é tudo para mim, porque me leva diretamente ao seu Coração, como se fosse a porta de entrada.” Essa mesma verdade foi expressa pelo Papa Pio XII, na Encíclica Haurietis Aquas, ao afirmar: “É na Face que se revela o coração.”
Quem contempla a Face de Cristo não permanece na superficialidade. O olhar do Senhor conduz ao seu Coração ferido de amor e misericórdia.
O Santo Sudário: um mistério que interpela a fé
Em 1578, uma grave peste assolava a Europa. Diante do sofrimento do povo, o arcebispo de Milão, São Carlos Borromeu, prometeu peregrinar a pé até Chambéry, em sinal de penitência e súplica pelo fim da peste. Para facilitar o cumprimento desse voto, o Duque Emanuel Filiberto, da Casa de Saboia, transferiu o Santo Sudário para Turim, onde permanece até hoje, guardado com segurança. Em 1983, o ex-rei Humberto II da Itália transferiu oficialmente os direitos sobre o Sudário ao Vaticano.
O Sudário de Turim voltou a despertar grande interesse em 1898, quando o advogado e fotógrafo amador Secondo Pia o fotografou pela primeira vez. Ao revelar o negativo, percebeu algo surpreendente: a imagem impressa no lençol apresentava nitidez e profundidade extraordinárias, revelando um efeito tridimensional inexplicável. As áreas claras tornaram-se escuras e as escuras, claras, algo que nenhum artista poderia ter concebido.
Estudos científicos posteriores demonstraram que não se trata de uma pintura. As manchas são de sangue humano verdadeiro, e as feridas do corpo impresso correspondem com precisão a uma crucificação romana. O homem do Sudário apresenta sinais de flagelação, coroação de espinhos, crucificação com cravos, lado transpassado, ferimentos por quedas, inchaços, sangue coagulado no rosto e fratura no septo nasal.
Para a ciência, o Sudário permanece um mistério. Como afirma o pesquisador Luigi Gonella, consultor científico da Arquidiocese de Turim, a ciência não pode afirmar com absoluta certeza que o homem do Sudário seja Jesus Cristo, mas reconhece ser extremamente provável, devido ao número impressionante de coincidências com os relatos da Paixão descritos nos Evangelhos.
A Face de Cristo no Brasil
A devoção à Sagrada Face encontrou também uma expressão singular no Brasil. Em 25 de março de 1959, Quarta-feira Santa, na cidade de Lagoa Santa (MG), o Padre Januário Baleeiro de Jesus e Silva, OCS, fundador da Congregação dos Oblatos de Cristo Sacerdote, foi encarregado de pintar uma imagem da Face de Cristo para a Procissão do Encontro, no tradicional Canto da Verônica.
Sem possuir habilidades artísticas e sem dispor sequer de pincéis, o sacerdote utilizou tinta a óleo e os próprios dedos para traçar a imagem sobre um pano de cetim branco. O resultado inicial foi simples e imperfeito. No entanto, ao desprender o pano da mesa, os presentes perceberam algo impressionante: no verso do tecido havia surgido uma segunda Face, muito mais delicada, harmoniosa e bela, incomparavelmente superior à imagem original.
Após um mês, o então arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, concedeu a bênção litúrgica à imagem. Ao conhecer a história de sua origem, afirmou com humildade: “Então eu é que devo ser abençoado por Ela.”
Por sua iniciativa, a imagem foi submetida a estudos técnicos. O parecer do Dr. Gerson Pompeu Pinheiro, diretor do Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro, concluiu que a imagem do verso não poderia ser explicada por simples vazamento de tinta, pois de uma causa menos perfeita não se poderia produzir um efeito de maior perfeição.
Um chamado à contemplação
Ao nos conceder a Sagrada Face, o Senhor parece recordar à humanidade que deseja caminhar conosco em meio às turbulências do mundo moderno, marcado pelo materialismo, pela indiferença religiosa e pelo pecado. Contemplar a Face de Cristo é permitir que ela resplandeça em nossa alma, iluminando nossa fé e fortalecendo nossa esperança.
Que, ao fixarmos o olhar na Face sofredora e gloriosa de Jesus, possamos penetrar cada vez mais no amor revelado em sua Paixão, Morte e Ressurreição. Como recordava Frei Anastácio Hackmann, grande amigo da Congregação, temos a graça de contemplar a Face brasileira de Cristo, sinal de que Ele continua próximo, presente e atuante no meio do seu povo.